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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Revoltas podem afetar fornecimento de petróleo, diz Gaddafi

DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS

Onda de RevoltasO ditador da Líbia, Muammar Gaddafi, afirmou nesta quinta-feira que a continuidade das revoltas que pedem o fim do seu regime --que já dura quase 42 anos-- podem afetar o fornecimento de petróleo do país. Em participação telefônica em uma programa da emissora de TV estatal do país, o ditador disse que os protestos não são liderados pelo povo, e sim pela rede terrorista Al Qaeda cujo líder, Osama bin Laden, está enganando os jovens que saem às ruas para "destruir" e "sabotar".

"Se os cidadãos não forem trabalhar, o fornecimento de petróleo será cortado", assegurou o ditador.

Nesta quinta-feira, o preço do barril de petróleo atingiu os níveis mais altos dos últimos dois anos e meio devido à instabilidade política na Líbia. O preço do barril do tipo Brent atingiu o pico de US$ 119,79 em Londres, antes de cair para menos de US$ 115.

AFP
TV mostra carros queimados em Trípoli; Gaddafi diz que rebelião no país é comandada pela Al Qaeda
TV mostra carros queimados em Trípoli; Gaddafi diz que rebelião no país é comandada pela Al Qaeda

Já nos Estados Unidos, o preço do barril do tipo leve chegou a US$ 103,41, caindo depois para cerca de US$ 100.

Assim como havia feito no discurso de terça-feira, Gaddafi voltou a convocar os membros de comitês populares a "sair para lutar" contra "aqueles que respondem às ordens de Bin Laden".

"Bin Laden [...] é o inimigo que está manipulando o povo", afirmou Gaddafi por telefone. "Não sejam persuadidos por Bin Laden."

Gaddafi afirmou que a Líbia não é como o Egito e a Tunísia onde, após dias, os protestos conseguiram derrubar seus ditadores. 'Aqui o poder está em suas mãos, é um sistema diferente', afirmou. 'Se você quiser mudar o governo, a escolha é sua.'

O ditador defendeu novamente que os manifestantes devem ser punidos e levadas a julgamento. 'Isso é inaceitável, é inacreditável.'

No discurso, Gaddafi pediu para que a população líbia vá às ruas do país e tomem as armas dos manifestantes, que agora controlam uma grande parte do país. "A Constituição é muito clara: tomem as armas deles."

"Eu só tenho autoridade moral", afirmou. Gaddafi tradicionalmente tenta se apresentar como líder de uma revolução que é liderada pelo povo, ao invés de um tradicional mandatário.

O novo discurso do ditador líbio ocorre no mesmo dia em que unidades do Exército e mercenários leais a ele revidaram contra manifestantes antirregime, atacando uma mesquita onde muitos haviam procurado refúgio e um pequeno aeroporto regional.

Os ataques objetivam acabar com a rebelião, que já chegou perto ao bastião de Gaddafi na capital, Trípoli. Os opositores já conseguiram tomar o controle de quase toda a metade leste do território líbio e algumas cidades do oeste, mas a repressão cobra suas vítimas: ao menos 640 pessoas morreram na Líbia desde 14 de fevereiro, segundo a Federação Internacional para os Direitos Humanos (FIDH).

O número representa mais que o dobro do balanço oficial do governo líbio de 300 mortos. A FIDH menciona 275 mortos em Trípoli e 230 na cidade de Benghazi, epicentro dos protestos.

Na cidade de Zawiyah, 50 quilômetros a oeste de Trípoli, uma unidade do Exército atacou uma mesquita onde manifestantes vinham acampando dentro e do lado de foram por diversos dias, pedindo a renúncia de Gaddafi. Os soldados abriram fogo com armas automáticas e atingiram o minarete do prédio com mísseis antiaéreos.

Segundo uma testemunha, houve mortes, mas era impossível dizer o número exato. Ele disse que, um dia antes, um enviado de Gaddafi havia ido à cidade e alertado os manifestantes: "Ou vocês saem ou irão ver um massacre". Zawiyah é uma importante cidade localizada nas proximidades de refinarias de petróleo.

Goran Tomasevic/Reuters
Líbios celebram tomada de cidade de Shahat, no leste da Líbia, em cima de tanque blindado
Líbios celebram tomada de cidade de Shahat, no leste da Líbia, em cima de tanque blindado

"O que está acontecendo é horrível, aqueles que nos atacaram não eram mercenários, são filhos do nosso país", disse a testemunha, completando que, após o ataque, milhares dirigiram-se à principal praça da cidade gritando "saia, saia", em referência à Gaddafi.

"As pessoas vieram para enviar uma mensagem clara: não estamos com medo da morte ou de suas balas. Esse regime irá se arrepender disso. A história não irá perdoá-los."

Durante seu discurso, Gaddafi afirmou que os relatos sobre Zawiyah são uma farsa. "Homens sãos não entram em tal farsa", disse o ditador. "Vocês em Zawiyah esconderam Bin Laden", afirmou. "Eles [os homens de Bin Laden] lhes deram drogas."

MISRATA

O outro ataque ocorreu em um pequeno aeroporto próximo à Misrata, a terceira maior cidade líbia, onde opositores assumiram o controle na quarta-feira. Nesta quinta, mercenários atacaram moradores que estavam protegendo o aeroporto, abrindo fogo com granadas e morteiros, segundo uma pessoa que assistiu ao ataque.

"Eles deixaram pilhas de restos humanos e um pântano de sangue", afirmou. "Os hospitais estão lotados com os mortos e feridos", completou, sem dar número exato de vítimas.

Antes do ataque terminar, antes do meio-dia, outro morador de Misrata afirmou que a rádio local --agora nas mãos da oposição-- pediu à população que marchasse até o aeroporto em apoio aos manifestantes.

As duas testemunhas afirmaram que os rebeldes continuam controlando a cidade, localizada 200 quilômetros a leste de Trípoli. Eles --assim como outras testemunhas na Líbia-- falaram sob condição de anonimato por temor de represálias.

A repressão de Gaddafi, até agora, tem ajudado o ditador a manter o controle em Trípoli, uma cidade que tem um terço dos 6 milhões de habitantes da Líbia. mas a revolta dos manifestantes, apoiados por unidades militares que desertaram e se juntaram a eles, tem dividido o país e ameaçado jogá-lo em uma guerra civil.

GOLPE

No último golpe contra o ditador, um de seus primeiros que é também um de seus mais próximos auxiliares, Ahmed Gaddafi al Dam, anunciou ter ido para o Egito em protesto contra a sangrenta repressão do regime contra a revolta, denunciando o que ele chamou de "graves violações aos direitos humanos e a leis humanas e internacional".

Asmaa Waguih/Reuters
Manifestante antigoverno passa por pichação que retrata Muammar Gaddafi em rua da cidade de Benghazi
Manifestante antigoverno passa por pichação que retrata Muammar Gaddafi em rua da cidade de Benghazi

O primo do ditador, Gaddafi al Dam, é uma das deserções dos mais altos níveis que o regime enfrentou até agora, após muitos embaixadores, o ministro da Justiça e o do Interior terem ido para o lado dos manifestantes.

O primo pertencia ao círculo íntimo de Gaddafi, sendo oficialmente sua ligação com o Egito, mas também servia como enviado do líder líbio a outros países e frequentemente aparecia do seu lado.

Em um comunicado divulgado no Cairo nesta quinta-feira, Gaddafi al Dam disse que deixou a Líbia "em protesto e para mostrar discordância" com a repressão.



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